A palavra aramaica "Abba" - que significa papai - expressa muito bem quem é o verdadeiro Deus dos cristãos: Aquele que quer se relacionar conosco como o nosso Papai, o Deus que é amor incondicional...





quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Como funciona a oração


       Você já parou para se perguntar como funciona o mecanismo da oração? Confesso que já o fiz muitas vezes. Nunca entendi por que uns eram atendidos e outros, não. Quem nunca desconfiou que orar não funciona? Houve um tempo em que eu cria que se eu fosse fiel a Deus, Ele concederia todos os meus desejos (um gênio da lâmpada!) e daria vantagens a mim quando eu tivesse alguma disputa com algum incrédulo, ou alguém que não ora como eu oro. Pensava eu que minhas súplicas "moviam a mão de Deus". Ainda não tinha lido: "E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, SEGUNDO A SUA VONTADE, ele nos ouve". (I Jo 15:14)

      Imagine que você está tentando a vaga num emprego. Concorrem com você umas trinta pessoas. Você acha mesmo que aquele candidato que conseguiu reunir o maior número de intercessores é o que vai levar a vaga no emprego? Se assim fosse, Deus seria manipulável. Seria alguém sempre pronto a satisfazer nossas vontades, ainda que não sejam legítimas. No exemplo do emprego, pelo menos o desejo é válido, a lógica da oração é que precisa ser revista.

A Bíblia não garante que Deus atenderá nossos pedidos exatamente como foram feitos: pode ser que a vaga no estacionamento não seja encontrada e que chova no dia da festa. A oração não se presta a fazer Deus trabalhar para nós, atendendo nossos caprichos e provendo o nosso conforto. Já que a causa da oração simples é a ansiedade, a resposta de Deus é a paz. O resultado da oração não é necessariamente a mudança da realidade a respeito da qual se ora, mas a mudança da pessoa que ora.
Ed René Kivitz 

        Perceba que a oração deve ser feita sempre, mas o assunto está extremamente vinculado à paz gerada pelo ato de orar: "Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petiçöes sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos coraçöes e os vossos sentimentos em Cristo Jesus." (Filipenses 4:6-7). 


     Saber que as preces não funcionam de forma mágica para obtermos os objetos de nossos desejos não deve nos tirar o estímulo de orar. Pois a maior vantagem de quem ora é a paz. Quem ora quando está aflito ou ansioso recebe a bênção de ser consolado. Quem ora desenvolve maturidade espiritual. Sabendo que, para que sejamos atendidos, temos que estar alinhados com a vontade do Pai, procuramos orar por coisas mais nobres. Mas isso não quer dizer que não possamos orar por coisas pequenas como para fechar um contrato ou conseguir achar um sapato perdido. Orar, por si só, já é um ato benéfico.


     Apenas ocorre que o conteúdo das nossas orações revela as coisas que ocupam nosso coração e a nossa mente. Se estamos sempre orando por coisas egoístas, isto nos mostra como estamos auto-centrados e ensimesmados. Se todas as suas orações são pedindo coisas para si mesmo, é hora de pensar um pouco...


   Robert Schuller diz que orar a Deus com a finalidade de que Ele conceda todos os nossos desejos é o mesmo que estar com o barco na beira da praia, jogar a âncora e puxar a corda para a praia chegar mais perto do barco. Na verdade é o barco que deve chegar mais perto da praia, não é mesmo? Assim também quando se ora, somos nós que chegamos mais perto de Deus e, não, Deus que se aproxima de nós. Por isso, alguém que ora bastante vê que suas orações são eficazes. É o homem que fica pertinho do Pai e começa a orar de acordo com Sua vontade e, não, Deus que fica saturado de tanto ser incomodado por seus filhos chatos e concede o que queremos.

       Será que você acredita em um anjinho que protocola suas súplicas? Francamente...


      O nosso raciocínio é que se nós oramos e não conseguimos o que queríamos, de nada adiantou o fato de temos orado. Mas já imaginou Deus dando tudo o que todo mundo pede? O mundo não seria habitável! Três, cinco, ou dez pessoas, querendo namorar a mesma pessoa, pediriam a Deus o amor desta. E ela se apaixonaria pelas dez ao mesmo tempo. Manipulação... Não daria certo nunca!

     Achar que vamos conseguir tudo o que a gente quer simplesmente porque fazemos coisas para Deus, é idolatria. Pois os ídolos são aqueles que pedem favores espirituais para agir. Oração a Deus é uma espécie de recurso para purificar os nossos desejos maus e não uma forma de ser o queridinho do Papai!


     Nada tem a ver com aquilo que nós tentamos fazer. Queremos bajular a Deus para amolecer Seu coração bondoso. Como se a quantidade de horas de adoração fossem contabilizadas para que depois nós as sacássemos, como se fosse um crédito. Não podemos convencer a Deus de fazer aquilo que nós achamos que é melhor para nós. Por isso diz o salmista: "Deleita-te no Senhor e Ele concederá os desejos do teu coração." Pois enquanto estamos de joelhos na presença de Deus, nossos desejos são alinhados com os desejos de Deus, por isso Ele concede.


    Nas palavras de Santo Agostinho: "Rogamos àquele que conhece, conforme suas próprias palavras, aquilo que nos é necessário, antes mesmo de lhe pedir-mos. Temos de entender que o intuito do Nosso Senhor e Deus não é ser informado sobre nossa vontade, que não pode ignorar, mas despertar, pelas orações, o nosso desejo para aquilo que nos quer dar e que, realmente, é imensamente grande!"


     Não me importo com a forma como oro. Nem me preocupo se minha oração é razoável ou não. Apenas converso com Meu Amigo e ponho para fora o que está no meu coração. Quero colocar diante dele tudo aquilo que me aflige. Mas espero que eu aprenda a ser mais nobre e maduro e orar por coisas mais dignas a cada dia. Pois a oração me leva para perto dele e faz de mim um discípulo que tem paz, alegria e perseverança.

   Precisamos aprender o segredo do contentamento, estar satisfeito em toda e qualquer situação (na linguagem de Paulo). Precisamos beber da água que sacia para sempre a nossa sede (linguagem de Jesus).

     Dostoiévski diz que o vazio no peito do ser humano é do tamanho de Deus. Por isso eu quero encher-me do Eterno. E, se na minha vida vai dar tudo certo, eu não sei, mas que vou orar até o fim, isso vou...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Abraão, Isaque e Jacó



     Quando Jacó fugia de seu irmão Esaú, teve uma experiência diferente com Deus. Ele disse que se o Senhor o guardasse, aí sim seria o Deus dele. Jacó estava desesperado porque sabia que tinha roubado a seu irmão, e este jurou que iria matá-lo. Só a partir de então é que ele resolveu se relacionar com Deus de forma íntima. Resumindo: até aquele momento, o que Jacó sabia a respeito de Javé (nome hebraico de Deus) era que este era o Deus de Abraão, seu avô e de Isaque, seu pai.

      Somente num momento de crise, no qual ninguém mais podia ajudá-lo, Jacó resolveu ter uma experiência profunda e pessoal com o Sagrado. Até então, apenas ouvia falar dEle. Até ali, para ele, parecia muito mais um deus ritualista e superficial do que o Deus de toda provisão!

     Alguns teólogos afirmam que Deus não é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ele é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Entende a sutil diferença? Ocorre que cada um de nós tem uma percepção do Pai. Cada um de nós se relaciona com Ele de uma maneira diferente. Com uns Ele fala quase que audivelmente. Com outros Ele fala prioritariamente através da Bíblia. Já com outros ele fala através de visões. E há aqueles com os quais Ele fala através de fortes sensações interiores. Para Davi, Deus era "Senhor dos Exércitos", que o protegia nas batalhas. Para seu filho Salomão, Deus era o supra sumo da sabedoria, que o guiava nas decisões mais difíceis, enquanto para Jesus, Deus é seu "Abba", seu Papai...

     Portanto, de nada adianta que você tente viver à sombra do Deus dos seus pais. Convivi com gente que entrou em crise existencial justamente porque até hoje não teve um encontro real e pessoal com o Pai. Gente que viveu frequentando igreja por causa da experiência que seus pais ou avós tiveram com Deus. Já está na hora de nós termos nossa própria vivência espiritual. Pois Deus só faz sentido se for real na nossa vida. Enquanto for mera ficção, não conseguiremos caminhar com Ele...

     Que busquemos a Ele com sede de aprender mais. Com sede de desenvolver sabedoria e intimidade. E que possamos dizer: "Antes eu Te conhecia de ouvir falar, mas agora, os meus olhos Te vêem"

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Das Vantagens de Ser Bobo




               O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

              Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

             O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

            Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. 



         Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

          Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

           Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

         Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

        O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

          Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

       Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

                                                                                                                              Clarice Lispector

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A Igreja e a mulher no mundo contemporâneo



No século primeiro a mulher era apenas mais uma propriedade do seu marido. Ela era considerada pecadora e mentirosa por natureza. Seu testemunho em um julgamento tinha pouco valor. Não por acaso, após a ressurreição, quando Jesus apareceu às mulheres, estas correram e contaram aos apóstolos, mas não tiveram crédito. Afinal, elas eram consideradas pessoas pouco confiáveis.

Vivemos num mundo em que as mulheres continuam sendo desvalorizadas. No nosso país, algumas dentre elas mesmas estão cantando que são comparáveis aos bichos, sem mencionar as frutas. Apesar das grandes conquistas obtidas recentemente – dentre as quais se encontram o direito ao voto e o ingresso no mercado de trabalho – elas continuam a ocupar um espaço reduzido na sociedade. Foi somente a partir da 1° Guerra Mundial que as mulheres começaram a ter uma notável participação no mercado, pois com os homens em combate, muitas delas assumiram suas funções na produção industrial.

O próprio fato da necessidade de haver um dia para que se homenageie a mulher é prova de que ainda não absorvemos a idéia de que os dois gêneros estão no mesmo patamar de importância e valor. A despeito de evoluções como a criação da Lei Maria da Penha, as mulheres continuam sofrendo com tudo quanto é tipo de violência: no lar, no trabalho e na sociedade em geral. Continuam recebendo bem menos que os homens que ocupam a mesma função, enfrentam com bravura a dupla jornada e aquelas que trabalham exaustivamente em seus lares não têm seu trabalho reconhecido.

Mas o que a Igreja tem a ver com tudo isto? Explico. Sabemos que nós, os discípulos de Jesus, estamos postos no mundo como sal. O sal, à época do Novo Testamento, era utilizado para conservar os alimentos e evitar que eles apodrecessem. Assim deve ser o cristão no mundo: aquele que evita que o mundo se afunde na sua podridão. Segundo a Bíblia Sagrada, também somos luz, por isso devemos iluminar as trevas em que o mundo se encontra. Jesus mesmo fez questão de valorizar as mulheres. O apóstolo Paulo afirma que: “Em Cristo, não há diferença entre homens e mulheres” (Gl 3:28)

Sabemos que Deus tem expectativas diferentes para cada um, mas a submissão de que trata a Bíblia em nada se assemelha à falta de cidadania, muito menos à escravidão. Se traçarmos uma linha divisória de classificação das coisas entre “morte” e “vida”, chegaremos a uma conclusão. Por exemplo: desespero: morte. Paz: vida; poluição ambiental: morte. Desenvolvimento sustentável: vida; uso de drogas: morte. Compaixão: vida; desigualdade social: morte. Amor: vida. E Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10:10). Portanto, quando lidamos com a desigualdade de direitos entre homem e mulher, falamos de uma questão de dignidade. E devemos lutar para que ambos a tenham, porque assim, lutamos pela vida.

O Reino de Deus é o ambiente onde a justa vontade do Pai é feita. A Igreja tem o papel de sinalizar, aqui na Terra, o máximo possível do Reino que se consumará na eternidade. A dignidade intrínseca ao ser humano faz parte da imagem e semelhança de Deus em nós e a Igreja tem a vocação de iluminar o mundo com este ensinamento. Que possamos dar a homens e mulheres o mesmo valor, em todos os setores da sociedade. Então, poderemos aplaudir de pé a competência, dedicação, beleza, simpatia e o carinho que só elas possuem.
25/04/10. Denilson Basílio Costa

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu

          

            O cotidiano às vezes nos massacra, não é verdade? Dias vão e vêm e parecem ser iguais. Parece que as coisas continuam sempre do mesmo jeito... Eu, por exemplo, acordo todos os dias às 5:15 h. E lembro de versos de uma música do Kid Abelha: "Quando eu acordo ainda está escuro, eu digo: hoje eu não vou...". Tudo me irrita. E o pior é quando a gente olha para a frente e não consegue ver quando as coisas vão mudar. Paciência.

           Por falar no Kid Abelha, vamos esclarecer alguns aspectos sobre a música secular. Evangelizar nada tem a ver com impor padrões culturais. As Boas Novas do Reino de Deus não pretendem descaracterizar a cultura de povo nenhum. Ser cristão não significa pertencer a uma cultura própria. Jesus nunca desejou isso. Basta ver a oração sacerdotal de João 17, quando ele pediu ao pai que não retirasse as pessoas do mundo, mas que as livrasse do mal. Por isso, Ricardo Gondim já dissertava sobre esse assunto desde a década de 90, em seu livro: "É proibido. O que a Bíblia permite e a igreja proíbe"

          A intenção de Deus não é que formemos guetos culturais, mas que fôssemos sal e luz dentro de nossa própria realidade. A música faz parte da produção cultural de um povo. Assim como não vemos apenas filmes gospel, nem lemos só livros de História escritos por crentes, não me parece obrigatório ter de ouvir apenas música sacra.
O grande desafio para os evangélicos é o de não condenar ou afastar-se da cultura por medo de ceder ao mundanismo. Agindo assim, rechaçamos e subestimamos a cultura e assim passamos a viver em guetos.
Ricardo Gondim
         Por isso prossigo na minha jornada de peregrinação espiritual sem me valer do sectarismo, essa vontade louca de viver isolado do "mundo" que alguns religiosos tentam impor sem uma argumentação consistente. Prefiro sonhar ao som de "Vilarejo" de Marisa Monte, música que segundo um pastor, é a melhor descrição do céu já ouvida por ele. Viajo nos versos dos poetas brasileiros. Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Manuel Bandeira e por aí vai. E tento repensar a vida sem aquele peso do dia-a-dia. Por isso de vez em quando solto a imaginação e produzo um quadro. Ou simplesmente rabisco um rosto delicado de mulher num papel.

          Na busca de coisas belas, vou contemplando o céu como Ícaro, mito grego que acabou sofrendo por ser sonhador demais. Diz a lenda que o pai dele teria construído asas com penas de animais e colado com cera das abelhas. Ao se distrair com a beleza do céu, Ícaro aproximou-se demais do sol, o que fez derreter a cera e o derrubou fatalmente no mar. Ainda que seja mais arriscado, vale a pena ver as coisas pelo lado belo da poesia, mais do que pelo lado frio da ciência e do ceticismo. Por isso prefiro o céu de Ícaro ao de Galileu. Mas certamente o fim do jovem que contempla o firmamento imaginando a eternidade será outro. Vida longa ao lado do Criador...
             

Já estou cheio de me sentir vazio

           

         A queixa de Renato Russo, na música "Baader Meinhoff Blues" é a mesma queixa de boa parte da humanidade. As pessoas estão cada vez mais ocupadas. Cada vez mais atarefadas. E tendo relacionamentos cada vez mais superficiais. Os estudiosos chamam isto de utilitarismo. Utilitarismo é o que acontece quando nós nos aproximamos das pessoas já calculando o que elas podem nos oferecer. Achamos que todos os nossos passos têm de ter alguma finalidade. Se pergunta: "O que eu vou ganhar se fizer isso ou aquilo?" Desse jeito, deixamos de lado aquelas amizades espirituais, onde estamos ao lado de pessoas sem motivo algum. Sem interesse. Só porque gostamos delas.

         A sociedade consumista quer sugar tudo o que vê pela frente. Não é raro vermos jovens famosos, ricos e poderosos sendo vítimas de mortes trágicas como a de Amy Winehouse. Mesmo tendo de tudo na vida, aparentemente, essas pessoas tentam suprir o vazio que sentem na alma através do sucesso, da fama, das bebidas, das noitadas, das paixões desenfreadas e principalmente das drogas. Tudo por que dentro de nós há uma espécie de sanguessuga, um bicho come-come que tudo quer traçar e nunca está satisfeito.

           Recentemente os cientistas chegaram à conclusão de que o ser humano possui um espaço no cérebro destinado à fé. Parece que já nascemos com esse lugar reservado para a busca pelo sagrado e pela espiritualidade. Isto explica porque em todas as culturas há crenças religiosas. E explica também por que tanta gente tenta ser feliz depositando suas vidas no carro do ano, na carreira dos sonhos, no grande amor da sua vida, na poupança gorda. O umbigo existencial da humanidade é um poço sem fundo. Somente o Deus eterno pode preencher esse vazio sem fim. Assim, podemos experimentar a paz que excede todo o entendimento, como diz o apóstolo Paulo.

          Quando comecei a ter uma certa intimidade com o Papai, deixei de fazer coro com o Renato Russo, pelo menos nessa frase. Não mais me sinto cheio de estar vazio. Pois aquele vazio foi preenchido pelo amor eterno e agora ainda que haja momentos de fraqueza, tristeza e solidão, estes são breves, pois o que permanece é a sensação de saciedade que Ele me deu.

           Chega de se sentir vazio. É possível se sentir feliz enquanto se corre atrás do futuro. Com ambição de crescer na vida e prosperar, mas de forma saudável e solidária, como Jesus nos ensina.

domingo, 31 de julho de 2011

Desejos


 O hedonismo é uma corrente filosófica que entende que a felicidade somente pode ser alcançada através da busca pelo prazer e pela diminuição da dor. Segundo essa doutrina, o prazer chega a ser visto como o próprio sentido da vida, sendo um bem em si mesmo. A escola hedonista cirenaica preceitua que quanto mais intenso for e quanto mais tempo durar o prazer, melhor viverá o homem. 

 A sociedade chamada pós-moderna é demasiadamente influenciada pelo hedonismo. Em nossos dias, ser feliz significa basicamente ter coisas suficientes para nossa satisfação. O consumo desenfreado, marco do capitalismo, é um retrato do mundo atual, o que faz com que cresça, sem parar, o abismo que separa aqueles que podem possuir as maravilhas da tecnologia daqueles que vivem à margem de tudo isso.
 A própria filosofia, através de muitos de seus mais famosos representantes, reconhece que se todos os seres humanos buscassem, o tempo todo, a satisfação de suas próprias vontades, acima de qualquer coisa, o mundo seria um caos maior do que já é. O pouco de ordem que conseguimos manter para que a Terra continue a ser um lugar habitável provém da capacidade que tem o homem de refrear seus instintos diante dos outros.
 O que a sabedoria cristã quer nos ensinar é que se você tiver uma experiência profunda com o divino, depois de algum tempo você vai perceber que todo o resto não vai fazer tanta diferença assim. Se formos ricos ou pobres, não vai fazer tanta diferença assim. Se minha saúde vai ser plena ou se vou estar doente, não vai fazer tanta diferença assim. Se eu estou bem empregado ou mal empregado, não vai fazer tanta diferença assim. Se eu vou poder ter filhos ou não, não vai fazer tanta diferença assim. Pois “ser cheio de toda a plenitude de Deus” significa não precisar de mais nada. É chegar a um estágio da existência em que nada mais importa muito.
 O conselho do apóstolo Paulo que, inclusive, conhecia muito bem a filosofia greco-romana, é: “Revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (Rm 13:14). Porque não é a satisfação dos nossos desejos que vai trazer a felicidade plena. O vazio do coração humano é eterno e só pode ser preenchido pelo Eterno. Por isso, sem comunhão intensa com Deus, sempre vai parecer que falta alguma coisa e a infelicidade será crônica.
O grande segredo para a satisfação e a felicidade plena é servir ao próximo. É isso que Jesus explica ao longo de todo o seu ministério terreno e nós, até hoje, não entendemos muito bem. Aproxime-se do outro e você terá mais chances de experimentar o amor de Deus. Busque a comunhão com o Pai e você terá superado o vício do desespero.
14/06/10. Denilson Basílio Costa

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Amizade, internet e fones-de-ouvido


               A vida no século XXI tem suas facilidades. Quem conseguiria viver sem internet atualmente? Nos acostumamos a viver conectados o tempo todo. Ainda me lembro de quando minha avó dizia que o fone-de-ouvido era o símbolo do egoísmo. Para ela, o nome do fone era "egoísta". Meu avô, então, ficou assustadíssimo com o advento do celular. Dizia ele que as pessoas estavam surtando por causa do pequeno aparelho, pois andavam pelas ruas gritando e gesticulando sem ninguém ao lado delas.

             Ah! Se meus avós soubessem como as pessoas transmitem informações em tempo real no Orkut, MSN, Twitter, Facebook... Acho que não entenderiam como nós conseguimos compartilhar nossas vidas com tamanha velocidade e sem a menor cerimônia.

           Apesar de tanta tecnologia, espero que nós tenhamos sabedoria para reinventar a cada dia as relações afetivas de qualidade. A comodidade da internet é tão grande que pode ocorrer a tentação do isolamento físico. Pois se eu posso estar em casa conectado a um mundo virtual de bate-papo com dezenas de pessoas ao mesmo tempo, por que deveria sair de casa para visitar um amigo? 
             
             O problema é que uma coisa não substitui a outra. As mensagens de texto, as gargalhadas virtuais do tipo: "kkkkk"; ou "hahuahau"; jamais serão gostosas como aquele abraço fraternal ou a cara avermelhada de quem ri de uma piada contada ao vivo e à cores. O mundo virtual pode ser uma bênção, sim. Na grande rede encontramos amigos que nunca mais veríamos se ela não existisse. O cuidado, porém, é necessário.

             Já reparou que até a fé está cada dia mais dinâmica? A questão é que a linha que separa dinamismo de egocentrismo é muito tênue. Assim como há inúmeros profissionais que já conseguem exercer seus ofícios em casa, hoje existe gente tentando praticar sua fé cristã no conforto de seus lares. Mas apesar de sabermos que o templo não é a "casa de Deus" (“o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas”. At. 17:24) - faz-se necessário que estejamos sempre em comunhão com os outros. Afinal, como aprender a perdoar e a amar os que nos perseguem se nem temos contato com as pessoas?

      
            Não podemos viver isolados dos outros, reclamando de seus defeitos para justificar nossa tendência egoísta e depois achar que a não participação nos eventos da comunidade não atrapalha a fé. A espiritualidade tem sua face individual, isto é nítido. Mas retire do cristianismo os ajuntamentos para oração, louvor e comunhão e o que sobrará será uma espécie de filosofia ou misticismo, apenas. Por estas razões, mesmo tendo sofrido com atitudes alheias, com decepções com aqueles de quem se esperava um ombro amigo, com as desavenças dentro da própria igreja, prossigo me esforçando para não deixar de congregar com os irmãos. Falhas, também as tenho. E é lutando para superá-las que continuo o caminho rumo ao Reino.

            Sedento por experiências profundas com o sagrado, procuro a verdadeira essência da fé. Minha alma tem pressa. Chega de coisas mesquinhas. Chega de disputas intermináveis por cargos na igreja. Chega de achar que todo mundo tem que ser líder disso ou daquilo. Chega de comportamentos teatrais. Quero ver gente de verdade. Gente que erra e depois ri das besteiras que fez. Quero também sentir a brisa suave do toque do Espírito Santo. E o auge dessa vivência é poder compartilhar a beleza da vida com amigos, principalmente aqueles que são mais chegados que um irmão. Pois estes ficam muito bem guardados: do lado esquerdo do peito.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma fé sadia para um mundo melhor

           

           A despeito de todas as previsões para o fim dos tempos e para a volta de Cristo, precisamos nos importar com o tipo de vida que vivemos enquanto estivermos aqui. A fé sadia tem como uma de suas funções proporcionar ao fiel um equilíbrio acima da média. Espera-se que uma pessoa de fé seja alguém que busca desenvolver uma maior capacidade de amar e perdoar. Nesse sentido, entendo que a espiritualidade é, de certa forma, uma maneira de sermos pessoas mais maduras.

            Percebo que, pelo menos na minha vida, a fé já mostrou sua enorme eficácia. Não fosse eu um jovem com vivência espiritual, jamais teria passado por momentos tão complicados com alguma serenidade. A busca pelo sagrado é uma aventura das mais fascinantes. A compreensão que temos do divino acaba norteando toda a nossa vida. Ao contrário do que pensam alguns, a fé nem sempre é um refúgio para os infantis. É bem verdade que há aqueles que procuram encontrar em Deus aquele pai que nunca tiveram. Mas o Deus que eu conheço, para o qual me ajoelho e oro, não faz de seus filhos covardes nem alienados. Pelo contrário. Ele zela pela liberdade - afinal, seres sem livre arbítrio nunca seriam capazes de amar. Ele sofre conosco a cada experiência dolorosa, pois sabe que sem uma dose de dor não há crescimento.

         Existe uma fé inteligente. Que caminha no rumo do auto-conhecimento e da paz. Sem radicalismos. Sem fundamentalismos. Por isso eu fico mesmo é com o filósofo Soren Kierkegaard:                  

           "A fé é a maior aventura existencial. Para os fracos, ela constitui abrigo, segurança. Para os fortes, a fé é uma aposta, uma aventura arrojada, um mergulho no Desconhecido. A fé do fraco é acomodação às circunstâncias, sujeição ao que se julga imutável. A fé do forte é a certeza da superação de todas as circunstâncias, de algo maior do que as limitações do presente, a antecipação de um futuro aparentemente improvável."

             
           Que nós possamos um dia entender que nenhuma palavra fala mais alto que o exemplo e que este não é a melhor maneira de se influenciar a sociedade. É a única. Além disso, não se trata de um exemplo puramente moral. O homem de fé não precisa ter aquele estereótipo de "certinho" ou de cisudo, mal humorado. Ele deveria ser um cara de bem com a vida. Um "gente boa" por natureza. Ser seguidor de Jesus é difícil, sim. Mas também nos traz paz e alegria. Para que os outros possam querer fazer parte da família de Deus, é preciso que percebam que nós, que já fazemos parte dela, somos felizes por sermos cristãos. Por isso concordo com o também filósofo Friedrich Nietzsche: “Se mais remidos se parecessem os remidos, mais fácil me seria crer no redentor”. 


            Houve períodos na história em que os intelectuais apostaram na extinção da religião e da fé. Pensavam que, em um mundo automatizado, cheio de tecnologia, não haveria espaço para a crença em Deus, pois esta seria considerada ultrapassada, coisa de ignorantes. Estavam errados. A ciência descobriu que o ser humano possui uma área do cérebro reservada para a fé. Ou seja, a espiritualidade jamais será abolida da raça humana, pois é uma dimensão da própria existência. É uma necessidade do homem. Ainda que seja ateu, esse ateísmo é uma forma de exercer sua crença.


             Uma fé sadia atrai os incrédulos para perto de Deus...  Está provado pelas pesquisas que a melhor forma de evangelismo é a convivência com os crentes transformados. A maioria dos que se convertem, o fazem porque conviveram com alguém que deu um bom testemunho de vida. Sem fanatismo. Mas com raiz fincada naquilo que é bom. Naquilo que é agradável. Naquilo que é de bom gosto. Seja essa a nossa experiência do sagrado. Uma espiritualidade inteligente e madura.



quinta-feira, 30 de junho de 2011

De cabeça pra baixo

             

             Após dois meses de silêncio, senti vontade de escrever novamente. Foi muito difícil conviver com os duros golpes que levei da vida desde o meado do ano passado até agora. No dia em que completo 27 anos de idade, me pus a fazer algumas reflexões acerca de como está a minha vida e de como está o mundo, de forma geral. Seria cômico, se não fosse trágico perceber que, no mundo de hoje, a virtude é motivo de vergonha. Ser bondoso, honesto, educado, gentil e tentar ter qualquer tipo de postura ética chega a nos fazer alvo de críticas sem fim. Alguns chegam a rotular um sujeito de bem como "otário". Como disse Rui Barbosa:

           "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto."

             Isso é triste. A pressão pra que nos tornemos mais um repetidor dos padrões atuais é muito grande. Sobretudo quando se é um jovem, homem, solteiro e crente. Parece que todos vêm um ET quando alguém devolve o troco a mais dado de forma errada pelo trocador do ônibus, quando se recusa a compactuar com um furto de prova da faculdade ou quando se abre mão de exigir os direitos em prol do benefício de um desconhecido que bateu no seu carro.

             Claro que nem sempre nós fazemos o que deveríamos. Eu e todos os jovens cristãos do mundo cometemos erros e deslizes vez por outra. Mas o padrão não pode ser o erro. O erro é acidente de percurso. Mesmo quando tentei desistir de ser "eu" e tentei parecer "igual a todo mundo", a experiência mostrou que não dá certo. Mesmo sendo visto como excessivamente ingênuo ou bonzinho, sigo nesse rumo da tentativa - veja bem, tentativa - de agir com o máximo de pureza de coração possível.

             Afinal, com a licença do Milton Nascimento, "há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão... E me fala de coisas bonitas que eu acredito, que não deixarão de existir. Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor. Pois não posso, não devo e não quero viver como toda essa gente insiste em viver. E não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal...Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão. Toda vez que o adulto fraqueja, o menino me dá a mão."

              Que esse menino renasça no dia de hoje!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

À espera de um milagre

         

          Você crê em Deus? Se a resposta for sim, então, você crê em milagres. Esta afirmação é praticamente unânime. Se Deus é o criador do Universo, necessariamente Ele tem poder suficiente para fazer qualquer tipo de milagre que deseje. Veja bem, dizer que Deus pode fazer milagres não significa que Ele vai fazer aquele milagre que você deseja, muito menos na hora que você quer.

          Durante muito tempo evitei criticar qualquer tipo de Teologia. Depois percebi que certas observações são necessárias, pois podem evitar que muitas pessoas se enganem  e se frustrem como eu mesmo me enganei e me frustrei. A Bíblia Sagrada está repleta de situações envolvendo curas e outros tipos de milagres. Mas faz toda a diferença saber o contexto em que tudo aquilo aconteceu.

         Os milagres são distribuídos na Bíblia em quatro grandes blocos de períodos: o do Êxodo, o dos profetas Elias e Elizeu; o de Jesus; e o dos apóstolos. Cada um desses períodos tinha um grande motivo para que Deus realizasse milagres em uma profusão acima da média. No caso de Jesus, por exemplo, os milagres tinham a função de confirmar que Ele era mesmo o Messias, o Salvador.

          Já os milagres que acontecem hoje são fruto dos dons distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja. Hoje, o dom de operar milagres é dado apenas a alguns, pois cada um tem um dom diferente.
           "Para o bem de todos, Deus dá a cada um alguma prova da presença do Espírito Santo. Para uma pessoa o Espírito dá a mensagem de sabedoria e para outra o mesmo Espírito dá a mensagem de conhecimento. Para uma pessoa o mesmo Espírito da fé e para outra dá o poder de curar. Uma pessoa recebe do Espírito poder para fazer milagres, e outra recebe o dom de anunciar a mensagem de Deus... Ele dá um dom diferente para cada pessoa, conforme Ele quer." (I Co 12 : 7-11)

         Os milagres, então, são fenômenos muito comuns nas Escrituras Sagradas, mas aquela intensidade vista na Bíblia era específica para carimbar e autenticar e messianeidade de Jesus. A revelação já está feita. Portanto é óbvio que o cristão acredita em milagres. Minha dificuldade é acreditar que os milagres possam ser feitos com tamanha banalidade, todo dia e toda hora, como vemos em alguns programas "evangélicos" na TV. Aquilo que não é eventual, não poderia ser chamado de milagre, pois este já traz em seu próprio conceito a característica de ser esporádico.

          Alguns movimentos religiosos querem lotar seus templos com o convite: "Venha buscar o seu milagre!" "Pare de sofrer, venha para nossa igreja". Como se nós pudéssemos manipular a vontade de Deus e obrigá-Lo a intervir de maneira sobrenatural nas nossas vidas para resolver nossos problemas particulares. Então, é bem provável que alguém ore com fé durante muitos anos, seja fiel a Deus durante todo o tempo, mas mesmo assim não veja o milagre que tanto deseja acontecer.

          Devemos servir a Deus por amor. Devemos glorificar o Seu nome independentemente das circunstâncias. Temos de ser realmente discípulos de Jesus. Se no meio desse caminho os milagres acontecerem, glória a Deus! Mas não pode ser esse o nosso objetivo maior. Não deve ser interesseira a nossa busca pelo sagrado, pois o amor não pode ser condicionado a exceções como os milagres. Deus deve ser amado não pelos presentes maravilhosos que pode nos dar - e Ele já nos tem dado - mas pelo que Ele é: Nosso Papai.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Tá doendo!

           

            Graças a Deus há pessoas equilibradas e coerentes dentro das comunidades cristãs! Mas sempre há alguns que tentam defender a idéia de que o cristão não pode adoecer. Se adoece, dizem eles, é porque está "em pecado"... Há aqueles que crêem, sinceramente, que quando Deus não nos cura através da oração, devemos determinar a cura e ignorar os sintomas. Sobre tudo isso já escreveu, em 1995, o reverendo Caio Fábio, no pequenino livro "O Privilégio de Simplesmente Dizer: Tá Doendo!" Ele conta a história de como quase morreu por não aceitar que precisava de médico, como qualquer ser humano precisa.

            A Bíblia, inclusive, conta a história de como alguns homens fiéis a Deus sofreram com suas enfermidades. Jacó e Eliseu, por exemplo, morreram em consequência de suas doenças (Gn 48:1-22 e 49:1-33; II Reis 13:14-20). Paulo fala ao povo da Galácia que esteve entre eles porque estava doente (Gl 4:13) e faz recomendações a seu grande amigo e filho na fé, Timóteo, pois era alguém muito abalado pelos problemas de saúde (I Tm 5:23). Diz ainda que Epafrodito esteve bem perto de morrer, depois de ter adoecido (Fl 2:25-28).

           Saber que o sofrimento, a dor e a doença fazem parte da vida de qualquer ser humano, por mais espiritual que seja, fez toda a diferença para mim. Evitou que me tornasse fanático. E fez com que eu tivesse estrutura para suportar os males que a vida nos traz, sem abandonar a fé. Não é porque ainda não fui curado de uma enfermidade dolorosíssima que sou um crente de segunda linha. Inclusive, Deus deu capacidade aos médicos para fazerem grandes intervenções e salvarem a muitos. Glória a Deus pela vida dos médicos!

           Somente através da fé madura podemos aprender que as maiores tristezas e as maiores alegrias são passageiras na vida. Mas vivendo pela fé em Cristo, temos um permanente estado de paz. Ainda que, às vezes, fiquemos preocupados e transtornados, nunca estamos completamente desesperados. É isso que tem me sustentado na pior fase da minha vida. Hoje, por exemplo, consigo entender que, ocasionalmente, é preciso abrir mão de estar ao lado de quem se ama, justamente para que o outro seja feliz e isto será bom para todos os envolvidos. O amor verdadeiro não é egoísta, mas altruista, pois deixa o outro livre.

           Não tenho dúvida que Deus pode curar qualquer enfermidade, física, mental ou espiritual. Mas hoje entendo que nem sempre isso ocorre, por motivos que nós não podemos explicar. Mas, em todo caso, sigo orando e pedindo a Deus que, se for possível, passe de mim esse "cálice", mas que, contudo, seja feita a vontade dele, assim como Jesus orou. Gostaria muito de me ver livre tanto do cálice da dor física como o da dor emocional. Porém, tenho consciência  de que, por vezes, a falta de cura do corpo pode curar a alma...

           Precisamos nos libertar desse peso de acharmos que não podemos adoecer, de que não precisamos de médicos, psicólogos, etc.

           "Só Deus sabe a quantidade enorme de vítimas angustiadas dessa doutrina (do não adoecimento dos crentes) que andam desoladas pelo país, vendo-se como as criaturas mais abomináveis e desprezíveis da Terra . Afinal, o que se diz que funciona sempre com quem tem fé, não funcionou com elas."      
Caio Fábio

            Tenho de admitir que, algumas limitações físicas e algumas tragédias emocionais acabam, algumas vezes, desenvolvendo qualidades em outras áres da vida, até então inibidas. O coração de Deus é realmente um grande mistério. Ninguém pode compreender a mente e os caminhos do Senhor. Mas certamente sairei dessas experiências traumáticas da vida com muito mais força e confiança para lidar com as contingências da existência humana... Obrigado, Senhor, por cada dia de vida. Os dias bons e aqueles que não são tão bons assim. Obrigado pelos amigos que me cercam e pelos irmãos que me abençoam, pois posso ver a Tua face neles... Obrigado, Senhor...       
           

O jeito cristão de viver a vida


              Vivemos num mundo onde, cada vez mais, estimula-se o individualismo e o consumismo. As pessoas hoje querem resolver seus problemas com um estalar de dedos, como se fosse mágica. Queremos ser felizes a todo custo, sem pensar nos outros. Todos nós, no fundo, procuramos o sentido pra vida o tempo todo. Caçamos a felicidade e achamos que vamos encontrá-la na pessoa amada, num bom emprego, num carro novo ou quando formos pais ou mães. Não é raro pensarmos: "Eu serei feliz quando acontecer isso ou aquilo..."

              Mas a felicidade não está na pessoa amada, num bom emprego, num carro novo ou nos filhos. Tudo isso é ótimo e traz muita alegria. Mas a essência não está nas coisas ou nas outras pessoas. Na minha pouca experiência de vida, aos 26 anos, percebo que só encontramos sentido para a vida quando temos uma proposta existencial bem definida. E não há melhor proposta existencial do que o Reino de Deus, visto através da espiritualidade sadia.

             No meu caso, não adiantou tentar me esconder. Mesmo quando eu me revoltava e fingia não ouvir o chamado de Deus, eu sabia que Sua graça é irresistível. Hoje sei que só me sinto feliz se desfrutar das coisas espirituais que estão disponíveis através do exame das Escrituras, da prática do amor, da comunhão com os irmãos e da oração.

            Não importa o quanto eu tentei viver fora dos caminhos de Deus para a minha vida. Ele sempre demonstrou seu amor e cuidado, deu-me dons que sei que não são naturais, mas servem para que eu ponha em prática o amor ao próximo (da mesma forma que Cristo nos ama). Portanto, o jeito cristão de viver a vida não é um jeito chato, intransigente, incoerente ou fanático. É um jeito leve, divertido, coerente, saudável e principalmente amoroso.

           Viver com Jesus é muito bom porque te dá a sensação de vida plena. Sinto-me muito feliz sendo discípulo de Cristo, pois olho para a vida com olhar de quem tem um profundo senso de liberdade. Essa liberdade de poder fazer aquilo que gosto e que convém é excelente! Pois sei que tudo me é lícito, mas nem tudo convém... E Deus não me obriga a fazer nada, nem deixar de fazer nada. Apenas me orienta e me ensina o caminho mais saudável para uma vida de plenitude. Por isso eu amo ser seguidor de Jesus!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Evangélico" e "Discípulo de Jesus" não são sinônimos

              

               É triste perceber que a grande maioria dos ditos cristãos no país não consegue ver que pode haver uma grande diferença entre ser discípulo de Jesus e ser evangélico. Conversando com um colega de trabalho, descobri que ele achava absurda a idéia de que um não-evangélico pudesse ser salvo. E ele não é o único. Faz parte de uma grande massa de pessoas que aprendeu desde pequeno que "fora da igreja evangélica não há salvação".


               Lembro-me que uma vez acabei entrando numa discussão por causa desse assunto. Claro que me arrependi. As pessoas não conseguem enxergar que a Bíblia menciona JESUS como o único caminho e, não, as comunidades evangélicas. Há quem creia sinceramente que os salvos são somente aqueles que levantaram suas mãos e disseram sim a um apelo feito por um pastor. Você já parou para pensar de onde veio o tal clichê "aceitar a Jesus"? Você sabia que nossas práticas "evangélicas" atuais , em sua maioria, são  importadas da cultura norte-americana e até do paganismo e, não necessariamente, extraída das Escrituras?

"Se você acredita que irão para o céu somente as pessoas que aceitam a Jesus como salvador depois de ouvir o evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana, então você está em apuros: o seu céu é pequeno demais; o seu Deus é pequeno demais; o seu Cristo é pequeno demais; o seu evangelho é pequeno demais; o seu Espírito Santo é pequeno demais; o seu universo de comunhão é pequeno demais; seu projeto existencial é pequeno demais; sua peregrinação espiritual é pequena demais."
Ed René Kivitz

               Recentemente passei a entender melhor a afirmação de Jesus: “Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus”. A Bíblia em nenhum momento diz que o céu é destino exclusivo dos evangélicos. Até porque a Reforma Protestante só aconteceu no Século XVI. Isso significa que só a partir desta época começou a se pensar no termo "evangélico" para se distinguir do termo "católico romano". Você acha mesmo que só a partir de então é que as pessoas começaram a ser salvas? Francamente...

              Sei que é difícil passar a enxergar as coisas com outros olhos. Afinal, no Brasil há uma tentativa de criar uma espécie de gueto evangélico, onde os crentes não se misturam com os chamados "ímpios". Querem acabar com a cultura brasileira. Querem impor aos membros das igrejas que só ouçam música gospel. Querem viver em um eterno louvorzão e marchando para Jesus o ano inteiro. O tempo todo quebrando maldições, conquistando território e ressuscitando práticas mortas do Antigo Testamento. Querem criar uma espécie de idioma "evangeliquês": "Oh abençoado!"; "Oh amado!"; "Eu recebo!"; "Eu profetizo"; "Eu declaro!". Não foi por acaso que Jesus disse: "Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno" (Jo 17:15). Não podemos criar uma realidade alternativa, mesquinha, pobre de cultura e chamá-la de "vida cristã".



 "O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo. Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador."
Ricardo Gondim



            Não existe uma vida cristã e uma vida não-cristã. Existe a vida. E uma maneira cristã de viver a vida. Mas ela é pura e simplesmente a vida. Só isso. Se nós tivéssemos o hábito de ler um pouco mais, saberíamos que essas práticas que hoje associamos à igreja, nada têm a ver com ela. Nada de super-campanhas. Nada de rosas ungidas. Nada de toalhinha suada pelo apóstolo. Estas coisas vieram através de um segmento novo da igreja chamado neopentecostalismo. É lógico que os irmãos neopentecostais são uma bênção em muitas outras coisas. Muitas coisas mesmo. O que menciono aqui é uma questão de ponto de vista. Mas nada disso acontecia na igreja primitiva e tampouco no início do Movimento Protestante. O centro da questão na Bíblia não é a busca por milagres e, sim, O Reino de Deus e o discipulado de Jesus. Os milagres serviam para confirmar que Jesus é o Messias e que os apóstolos eram legítimos.

           O problema é que "Deus fala" com algumas pessoas todo dia. É no mínimo esquisito essa constância toda. Na Bíblia, Deus demora anos para voltar a falar com muitos personagens. Já disse alguém que se você fala com Deus todo dia você é um bom cristão. Mas se Deus fala todo dia com você, você é um lunático... Por isso, Deus nos livre de um Brasil evangélico. Pois viveríamos numa espécie de ditadura religiosa. Você quer um Talibã no nosso país? Então nem queira ver o que seriam capaz de fazer os "apóstolos" desse nova face da igreja. Preferiria ver um Brasil governado por um sujeito que tem compromisso com Deus, mas não, necessariamente, um "evangélico de carteirinha".

          Sei que alguns podem pensar que eu sou um cristão moderninho demais. Pelo contrário. Moderninhos são os que inseriram na comunhão dos discípulos de Jesus uma série de costumes estranhos ao Novo Testamento, que deveria ser o guia para as igrejas, ressalvadas as questões culturais da época.

          Quando tomamos consciência de que "obedecer cegamente a liderança"; ouvir somente música gospel, que alguns dizem ser todas "inspiradas por Deus"; ter que usar um padrão de fala, roupa e costumes, dentre outros ensinos, são coisas que pertecem à realidade evangélica atual, mas não, necessariamente, à forma cristã de viver, nossos olhos se abrem e temos a sensação de libertação. Deus nos liberta da religiosidade e nos apresenta a espiritualidade sadia ensinada por Jesus. Essa sim, é difícil de ser vivida, mas é gostosa como nenhuma outra é.

          Ser discípulo dói. Faz os outros te acharem estranho. Mas é bom demais. Dá uma grande paz saber que, sendo cristãos maduros, podemos nos misturar com outros, mas não vamos perder a identidade de filhos de Deus. Vamos ao cinema, à universidade, ao teatro, lemos poesia, ouvimos MPB, jogamos futebol, curtimos uma pizza com os amigos. Mas nada disso vai nos possuir. Que assim seja. Pois precisamos estar misturados com as pessoas para influenciá-las, como o sal se mistura aos alimentos para que possa lhes realçar o sabor.

Um abraço!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Todo mundo odeia o "Isso"!


             A série de TV americana "Todo mundo odeia o Chris" foi sucesso nos Estados Unidos e agora repete a dose no Brasil. A história conta um pouco da adolescência de Chris Rock, um comediante negro que estudou numa escola que só tinha brancos numa época em que o racismo era muito pior do que hoje. Chris parecia estar sempre na mira dos outros. Era foco de vários problemas e alvo de muita perseguição.

          Há alguns meses tenho passado por situações que, quando consigo contar aos mais chegados, despertam reações de certa pena e estranheza... "Poxa vida! Tudo de ruim acontece logo com você, uma pessoa boa..." - É o que alguns amigos me dizem... Alguns deles chegam a duvidar da justiça divina, pois dizem que eu não merecia tantos males de uma só vez.

            De fato é muito ruim ser alvo de tantas coisas ruins... Fui atacado em todas as áreas da vida ao mesmo tempo... Pense em uma área qualquer: saúde, finanças, família, trabalho... Tudo em crise... É verdade que não sou super homem, tampouco super crente. Mas tenho buscado algum equilíbrio em meio ao caos. Em uma só semana, uma série de eventualidades acontece comigo. Na semana dos piores temporais de janeiro, apenas um carro foi danificado por uma árvore que caiu no estacionamento do meu trabalho, adivinha qual??? Não adivinha não que é pecado!

              O pior é quando você quer abrir o coração e desabafar com um colega cristão e ele te diz: "É assim mesmo... Se não tem luta não tem vitória, varão..." Grandes palavras de consolo!!! É grande demais a estupidez dos religiosos que querem nos massacrar com suas atividades eclesiásticas interesseiras em vez de tentar levar uma palavra de carinho ou pelo menos ouvir com atenção as nossas angústias. Afinal, para quem gosta de aparecer e de usar a igreja para se promover, não importam os problemas alheios, principalmente quando tais pessoas tem suas vidas estabilizadas e gozam de grande conforto em seus lares.

          Foi então que resolvi tentar levar as coisas terríveis que têm me atingido com um pouco mais de humor. Lembrei que meu irmão mais novo não conseguia pronunciar meu nome quando pequeno. O máximo que conseguia dizer era "Isso..." ao tentar me chamar de Denilson... Aos quinze anos ele ainda me chama assim - e eu gosto porque é carinhoso. Não sei porque lembrei dessa fase da minha vida, quando era adolescente e brincava com meu irmão caçula. Fase em que, de vez em quando, já tinha a impressão que o mundo me odiava...

          Acho que todos passamos por esses momentos e eles não podem nos fazer achar que não existe justiça no Universo. E que Deus não é justo. Ocorre que o fato de estarmos vivos já nos expõe às contingências da vida. A diferença é que quando nós praticamos a fé, temos estrutura para suportar os momentos mais difíceis... Assim, mesmo que muitas vezes eu me revolte e desanime - e isso acontece mesmo - tenho certeza de que as coisas passam, sejam boas ou ruins... Tudo passa, tudo sempre passará. Afinal, como diz o poeta, a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito...

          Mesmo quando parece que todo mundo me odeia, tenho a certeza que posso dormir em paz, pois meu Deus tem cuidado de mim. Tem cuidado de nós... Só não seja tão insensível para dizer apressadamente essas palavras aos que sofrem grandes males. Ouça primeiro. Dê importância ao que o outro diz. Ele só quer desabafar. Principalmente porque, eventualmente, o outro posso ser eu... Entende?

Denilson Basílio Costa

domingo, 9 de janeiro de 2011

Alguns esclarecimentos

            

                Gostaria de deixar bem claro que o fato de que escrevo periodicamente alguns textos neste blog, ou o fato de que freqüento uma comunidade de tradição protestante batista, ou mesmo o fato de ser declaradamente alguém que tenta ser discípulo de Jesus, não quer dizer, como alguns supõem, que me sinto mais santo, puro, ou iluminado que os outros. Apenas achei que tinha algumas questões a compartilhar e me sentiria egoísta em guardar apenas para mim as coisas que entendo que estão me sendo mostradas pelo Espírito Santo. O problema é que algumas pessoas nunca entenderam como funciona a graça de Deus. Aquele que está debaixo dela, é capaz de se reconhecer pecador e errante todos os dias.

                Não tenho a mínima dúvida da minha miserabilidade espiritual. Sei que sou falho e conheço alguns dos meus defeitos há bastante tempo. A diferença é que tento, todos os dias, lutar contra eles. Sei muito bem o que fizeram de mim, mas tento a cada dia fazer o melhor que posso com aquilo que fizeram de mim... Escrevi por entender que seria importante para alguém ler sobre coisas que o angustiam e que eu já experimentei. É por isso que escrevo: não por arrogância, mas na tentativa de ajudar alguém, assim como  sou ajudado... Até mais...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A parábola da bola


             
                Os dez homens importantes sentados ao redor da bola discutiam acaloradamente:

– A bola é grená, disse um.

– Claro que não, a bola é bordô, retrucou outro em tom raivoso.

              Todos estavam fascinados pela beleza da bola e tentavam discernir a cor da bola. Cada um apresentava seu argumento tentando convencer os demais, acreditando que sabia qual era a cor da bola. A bola, no centro da sala, calada sob um raio de sol que entrava pela janela, enchia a sala de uma luminosidade agradável que deixava o ambiente ainda mais aconchegante, exceto para aqueles dez homens importantes, que se ocupavam em defender seus pontos de vista.

– Você é cego?, ecoou pela sala gerando um silêncio que parecia ter sido combinado entre os outros nove homens importantes. Era até engraçado de observar a discussão – na verdade era trágico, mas parecia cômico. Todos os dez homens importantes usavam óculos escuros, cada um com uma lente diferente. Talvez por causa dos óculos pesados que usavam, um deles gritou “você é cego?”, pois pareciam mesmo cegos.

               Depois do susto, a discussão recomeçou. O sujeito que acreditava que a bola era cor de vinho debatia com o que enxergava a bola alaranjada, mas um não ouvia o que o outro dizia, pois cada um usava o tempo em que o outro estava falando para pensar em novos argumentos para justificar sua verdade. Aos poucos, a discussão deixou de ser a respeito da cor da bola, e passou a ser uma troca de opiniões e afirmações contundentes a respeito das supostas cores da bola. A partir de um determinado momento que ninguém saberia dizer ao certo quando, os dez homens tiraram os olhos da bola e passaram a refutar uns ao outros. Em vez de sugestões do tipo: – A bola é vermelha, todos se precipitavam em listar razões porque a bola não era grená, nem cor de vinho, nem mesmo alaranjada.

               De repente, alguém gritou: – Ei pessoal, onde está a bola? Todos pararam de falar – estavam todos falando ao mesmo tempo, e foi então que perceberam um alarido parecido com aquelas gargalhadas gostosas que as crianças dão quando sentem cócegas. Correram para a janela e viram uma criançada brincando com a bola, que parecia feliz sendo jogada de mão em mão. Ficaram enfurecidos com tamanho desrespeito com a bola. Ficaram também muito contrariados com a bola, que parecia tão feliz, mas não tiveram coragem de admitir, afinal, a bola, era a bola.

              Lá fora, sem dar a mínima para os dez homens importantes, estavam as crianças brincando e se divertindo a valer com a bola que os dez homens importantes pensavam que era deles. E nenhuma das crianças sabia qual era a cor da bola.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Vocação profissional e Reino de Deus

          

(Especialmente para Kharolyna!)



             Uma das fases mais delicadas de nossas vidas é aquela em que não sabemos o que fazer de nossa vida profissional. Longas noites em claro e muitos conselhos diferentes fizeram parte da minha trajetória. Cada semana pensava em seguir uma profissão diferente. Desde jogador de futebol até desenhista industrial, passando por escritor, professor e por aí vai...

            Certa vez ouvi um pai contar a história do filho que, ainda criança, disse aos pais quando estava no banco de trás do carro  o seguinte: 
- Papai... Mamãe..Quero ser lixeiro! 
- Ah! Muito bem, meu filho! Por quê? - perguntou o pai.
- Porque eu quero usar um colete que brilha no escuro igual a esse aí do lixeiro!!!

            É engraçado, mas muitos de nós optamos por carreiras pelos motivos mais estranhos que se possa imaginar. Lembrando dos momentos de indecisão pelos quais passei e percebendo a angústia de uma simpática colega, que passa por esse dilema, resolvi tentar ajudar para, pelo menos, amenizar a ansiedade por causa da indecisão.

            "Você sabe que tem uma vocação quando seu conjunto de talentos, capacidades e habilidades está identificado. Os conceitos de inteligências múltiplas e de dons e ministérios indicam que todas as pessoas são dotadas de recursos para realizações úteis. Quando somos conscientes dos recursos que nos são inerentes ou que recebemos e ou adquirimos ao longo da vida, podemos discernir melhor a contribuição que podemos dar para o bem comum."  
Ed René Kivitz - Pastor Batista


            Em outras palavras, a oração é muito importante em todos os momentos de nossas vidas, inclusive nos momentos em que temos de fazer escolhas. Porém, se observarmos bem, Deus também age nos dotando, ao longo de nossas vidas, de dons para fazer coisas que fazemos espontaneamente e com excelência. E a confirmação de que aquilo é a nossa vocação vem quando as pessoas começam a nos elogiar e nos incentivar a prosseguir naquele rumo.

            Quando Jesus diz que o Reino de Deus já começou (Mt 12:28), Ele diz que está inaugurado um novo tempo. Tempo em que o Universo começa a ser redimido. Nós sabemos que a redenção completa só se dará na eternidade, mas isso não nos isenta da responsabilidade de colaborarmos como agentes deste Reino. Fazemos isso não só nas atividades da igreja, mas em todos os ambientes dos quais participamos. Quando seguimos nossa vocação e nos dedicamos à profissão buscando a excelência, estamos sendo sinais do Reino de Deus aqui na Terra.

            Assim, na nossa carreira profissional, seremos sal e luz quando nos enxergarmos como filhos de Deus no local de trabalho, sendo os melhores profissionais que pudermos ser e fazendo aquilo que sentimos que nascemos para fazer. É essa a maneira de trabalharmos em harmonia com Deus para pôr um pouquinho de ordem, de cosmos (beleza organizada) nesse mundo de caos. A humanidade precisa de médicos, professores, garis, pedreiros, técnicos de informática, advogados, donas-de-casa, etc. Devemos usar os dons que recebemos do Pai em favor de um mundo melhor, ainda que saibamos que este mundo tem seus dias contados.

        Certamente você tem habilidades que muitas pessoas elogiam e que você usa com naturalidade e prazer. Talvez seja justamente essa a sua porção de contribuição para a sociedade, sem falar que vai ser o instrumento que Deus vai usar para te dar o pão de cada dia. E não se esqueça: é dom de Deus e, não, sua capacidade e seu mérito.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A presença do Espírito Santo



Não poucas vezes ouvi alguém dizer que determinada igreja era demasiadamente “fria”. Ora, o que isto quer dizer? Basicamente, quer dizer que durante suas reuniões há poucas, ou nenhuma manifestação emocional e o auditório quase não dá retorno imediato ao que está sendo dito. Mas será que esta conclusão está realmente ligada à presença ou à ausência do Espírito Santo?
Em uma das vezes em que liguei a televisão num dia de domingo, ao final da manhã, estava sendo transmitido um destes programas de televisão evangélicos. Percebi que todo o programa girava em torno da expressão “avivamento”. E, como demonstração do que seria este avivamento, eram exibidas cenas de reuniões nas quais o apresentador pregava. As cenas eram de pessoas pulando, contorcendo-se e fazendo uma espécie de dança.
O mesmo apresentador, por diversas vezes, deixou clara a sua visão de que o “avivamento” era uma questão de sobrevivência da Igreja. Foi então que me pus a pensar: É evidente que um intelectualismo exacerbado e sem interação com o outro é nocivo em qualquer relacionamento. O próprio Senhor Jesus se emocionou, chorou e alegrou-se. Mas assim como negar as emoções é prejudicial, negar a palavra que fala à razão não constitui uma prova de fé.
“A Palavra de Deus ensina que a nossa razão é parte da imagem divina na qual Deus nos criou. Ele é o Deus racional que nos fez seres racionais e nos deu uma revelação racional. Negar nossa racionalidade é, portanto, negar nossa humanidade, vindo a ser menos do que seres humanos.”
John Stott
Parece-me que a vibração litúrgica de um auditório lotado não é a melhor forma de medirmos a presença do Espírito Santo em determinada comunidade. O mais relevante, pelo menos segundo a minha ótica, é a presença do Espírito em nossas vidas, que pode ser percebida pelo Seu fruto, que é o amor, a paz, a alegria, a bondade, a benignidade, a paciência, a mansidão, a fidelidade, o domínio próprio...
Manifestações de choro frenético, gritos e grandes emoções não me parecem traduzir a palavra avivamento. Este seria muito melhor demonstrado se procurássemos avivar as nossas vidas, pôr em prática o que Jesus ensinou claramente: viver o amor, praticar o bem, negar o egoísmo, viver em comunhão e, principalmente, não mais se preocupar em receber bênçãos sem medida, mas se ocupar em ser uma bênção para o mundo.
21/05/10. Denilson Basílio Costa